Arte e Protesto



A arte é a forma utilizada pelo artista para mostrar sua técnica, personalidade e influência. Também pode se tornar um poderoso instrumento social e ideológico se o autor assim o desejar. Utilizando-se do maior evento esportivo dos Estados Unidos, com uma audiência de mais de 100 milhões de pessoas, Beyoncé marcou definitivamente seu nome na história da luta contra o racismo. Impulsionados pelo poder das redes sociais, a apresentação na última edição do Super Bowl e o clipe da música, lançado estrategicamente um dia antes do evento, repercutiram em todo o mundo.

Referendando a cultura negra norte-americana, do figurino de suas dançarinas como Panteras Negras, à coreografia em forma de X, alusiva a Malcom X, até a letra da música composta por frases sobre o Furacão Katrina que devastou New Orleans ou jovens negros assassinados pela polícia, cada detalhe da apresentação está relacionado ao racismo nos USA. Não por acaso, o lançamento do clipe coincidiu com a doação milionária que ela e o marido fizeram para o movimento Black Lives Matter, que combate a brutalidade policial contra negros naquele país.

Desde que Nina Simone ousou protestar de forma veemente contra o racismo, não se via um artista causar tanto impacto. Os negros sempre foram valorizados pelo seu talento musical, mas quando utilizam de sua influência para se posicionar politicamente em um espaço considerado “inadequado”, o entretenimento, tencionam. E se uma mulher negra com posicionamento político incomoda muita gente, essa mesma mulher, sendo umas das cantoras mais ricas e poderosas do mundo, incomoda muito mais.

Boicotes, repressões e protestos podem ter ajudado a acabar com a carreira da talentosa Nina Simone, mas não terão o mesmo efeito com a rainha do pop no século 21. A cantora declarou que queria apenas que as pessoas ficassem orgulhosas de si.Mas seu feito foi muito mais além, trouxe à tona a discussão racial por meio de sua música e fez história ao transformar o que seria apenas mais um show em um grande ato político para milhões de pessoas, respingando até no Brasil, “paraíso da democracia racial”.